A BREVE HISTÓRIA DA HEMATOLOGIA CLÍNICA

A especialidade de Hematologia como área individualizada da Ciência Médica é, à imagem dos outros países europeus, de criação relativamente recente em Portugal. Só em 1975 se individualizou da Medicina Interna, sendo então criada a carreira hospitalar de Hematologia, em simultâneo com o estabelecimento do Colégio de Hematologia Clínica na Ordem dos Médicos. Diversos foram, no entanto, os médicos e cientistas portugueses que desde as primeiras décadas do século XX se interessaram pelo estudo das doenças do sangue.

Pedro Roberto Chaves (1887-1951), Professor de Histologia e Embriologia e de Semiótica Laboratorial, na Faculdade de Medicina de Lisboa, foi talvez dos primeiros médicos portugueses que se interessaram pela patologia hematológica, tendo publicado diversos trabalhos científicos sobre a histopatologia da medula óssea e o diagnóstico de leucemias. Abel Salazar, ilustre Professor de Histologia da Faculdade de Medicina do Porto e Pulido Valente, Catedrático de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Lisboa, contribuíram também, a partir de 1920, para o desenvolvimento do conhecimento hematológico em Portugal, o primeiro na sua vertente laboratorial e o segundo na sua dimensão clínica.

Carlos Trincão, discípulo de Pulido Valente, destacou-se pelos seus trabalhos mundialmente famosos, sobre a “Anemia da Ancilostomiase” e sobre “Hemoglobinopatias nos Portugueses”. A partir de 1949 foi Professor de Hematologia e Protozoologia do Instituto de Medicina Tropical, em Lisboa, tendo publicado inúmeros trabalhos científicos sobre temas de hematologia. Foi talvez Carlos Trincão, o primeiro hematologista português, dedicando toda a sua vida de médico, cientista e professor ao desenvolvimento do conhecimento hematológico.

Mais recentemente, um outro discípulo de Pulido Valente viria a proporcionar à Hematologia Portuguesa um renome internacional. Trata-se de Armando Ducla Soares, Catedrático de Propedêutica Médica da Faculdade de Medicina de Lisboa entre 1965 e 1982. Notável como clínico e pedagogo, a sua personalidade viria a marcar indelevelmente as gerações de Hematologistas que com ele trabalharam. Em colaboração com Francisco Parreira, desenvolveu intensa actividade científica no campo das púrpuras trombocitopénicas, das anemias carenciais e das leucemias, traduzindo-se num vasto número de publicações em revistas internacionais, entre os anos 1950 e 1970. Ambos publicaram, ainda em 1968, um manual de Hematologia, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian que se tornou um texto fundamental para todos os estudiosos de Hematologia no País.

Armando Ducla Soares e Francisco Parreira estabeleceram em Portugal as bases para a criação da Especialidade de Hematologia Clínica e fomentaram o desenvolvimento das actuais Unidades hospitalares de tratamento de doenças hematológicas. A eles se deve, ainda, em 1974, a iniciativa de criar a Sociedade Portuguesa de Hematologia, que tem vindo a desenvolver, ao longo dos anos, um papel relevante  na expansão da Hematologia no nosso País, através da comunicação e intercâmbio de experiências científicas e tecnológicas entre os diferentes centros de desenvolvimento.

Entre 1950 e 1980,  Valadas Preto, nos Hospitais Civis de Lisboa e Freitas Tavares, da Faculdade de Medicina de Coimbra, ficam também ligados à estruturação da Hematologia em Portugal, através das suas actividades clínica e docente. Valadas Preto, criador da escola de Hematologia dos Hospitais Civis de Lisboa, desenvolveu um trabalho pioneiro no estudo da incidência, epidemiologia e clínica de vários tipos de hemoglobinopatias em Portugal.

O desenvolvimento da Hemoterapia e dos Serviços de Transfusão Sanguínea deve-se, entre nós, a médicos como José Gentil, nos anos 20, Armando Luzes e Almerindo Lessa, a partir de 1940. Almerindo Lessa contribuiu para a organização dos Serviços de Transfusões em Portugal, fomentando a dádiva do sangue e os estudos serológicos de grupos sanguíneos. Publicou diversos trabalhos de importante difusão no País.

A criação mais recente de Serviços hospitalares autónomos em três Centros Universitários do País (Lisboa, Porto e Coimbra) traduziu-se na definição, a partir dos anos 70, de programas de preparação pós-graduada em Hematologia Clínica, os quais seguiram genericamente as linhas existentes em vários Países europeus. Foi nestes Centros que se formou a actual geração de Hematologistas portugueses, alguns dos quais efectuaram estágios em Serviços estrangeiros de renome internacional, transpondo para Portugal os modernos métodos de diagnóstico e tratamento das hemopatias e contribuindo para a criação de Unidades hospitalares e de investigação competitivas no domínio da especialidade.

Razões conjunturais de diversa ordem, essencialmente relacionadas com vicissitudes da carreira hospitalar, fizeram com que em Portugal e logo a partir da criação da especialidade de Hematologia Clínica em 1975, se tenha criado separadamente a especialidade de Imunohemoterapia, enquanto carreira hospitalar de conteúdo programático próprio. Perdeu-se assim a oportunidade de reunir numa só especialidade médica, todos os profissionais que se dedicam à patologia do sangue e da medula óssea, orientação divergente da verificada em vários Países europeus nos quais a Hematologia moderna tem sido alvo de maior desenvolvimento e pujança.  

Prof. Doutor António Parreira
Lisboa, 2002