“O congresso é um momento de aprendizagem e discussão”

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A poucas semanas tem lugar mais uma Reunião Anual da Sociedade Portuguesa de Hematologia. É nos dias 15,16 e 17 de Novembro que os especialistas da área se reúnem para actualizar conhecimentos, mas também para uma troca de experiências que, na opinião do jovem Interno Marcos Lemos, pode ser díspar num raio de 10 Kms. A Sociedade Portuguesa de Hematologia foi falar com alguns membros da Comissão Organizadora (Dr. Marcos Lemos, Interno de Hematologia; Dra. Leonor Morais Sarmento, Interna de Hematologia; Dra. Joana Caldas, Assistente Graduada de Hematologia Clínica do Hospital dos Capuchos) e perceber quais os principais desafios e destaques do programa deste ano.

Sociedade Portuguesa de Hematologia (SPH) – Desde 1999 que as várias direcções da Sociedade mantêm a tradição de realizar a sua Reunião Anual. Qual a importância deste evento?

Dra. Joana Caldas

Dra. Joana Caldas (JC) – Este é um evento extremamente importante. Primeiro porque reúne os Hematologistas do país e permite um confronto de experiências; Apesar de haver alguma maior dedicação de alguns Serviços de Hematologia a áreas de maior interesse (uns mais dedicados ao glóbulo branco, outros tradicionalmente mais ao glóbulo vermelho e/ou coagulação), não faz sentido que num país tão pequeno como o nosso, com tão poucos Hematologistas e doentes com as diversas patologias hemato -oncológicas, que não haja uma uniformização da atuação, nomeadamente terapêutica. É por isso aqui, um local de oportunidade à eventual constituição de bases de dados de doentes, tornando possível a realização de protocolos, imprescindível para futuros estudos prospectivos ou retrospectivos a realizar. Assim, faz todo o sentido organizar esta Reunião. É uma mais-valia para todos.

Dr. Marcos Lemos (ML) – É um espaço privilegiado para o intercambio entre os Hematologistas nacionais e, consequentemente, de fortalecimento da Hematologia portuguesa. A partilha de ideias, práticas e problemas contribui de forma indubitável para essa evolução. Existe ainda um relevante lado humano: o estreitamento de relações entre colegas de diferentes serviços é muitas vezes um primeiro passo para colaborações frutuosas. Apesar de tudo, existe uma diversidade de experiências e vivências importante entre serviços, tornando ainda mais rica esta partilha anual. Quem ganha com tudo isto são os doentes.

SPH – Fala em vivências e experiências diferentes numa curta distância entre os serviços, na Vossa opinião deve-se a quê?
ML – Aos diferentes perfis dos serviços, à frequência relativa de determinadas patologias em detrimento de outras, a questões organizacionais, mas também a questões relacionadas com as populações abrangidas pela área de influência de cada serviço.

Dra. Leonor Morais Sarmento (LMS) – A Hematologia é uma especialidade extremamente dinâmica. A rápida evolução resulta numa quantidade enorme de novos conhecimentos a cada dia, a compreender e a integrar na prática médica. Apesar de todos praticarmos uma medicina baseada na evidência, nestas áreas em “ebulição” há muita reflecção e experiência a partilhar.

SPH – Portanto a reunião não é apenas um momento para actualização de conhecimentos?
JC – São muitas outras coisas. A reunião serve também para o encontro dos especialistas e muitas vezes para a apresentação dos internos à “família hematologista”; é muitas vezes ali que o jovem hematologista conhece os seus pares de outros hospitais e faz o seu “debute”, com a apresentação de trabalhos a nível nacional. E é também aqui que alguns dos grupos já formados, de interesse em diversas patologias, aproveitam para se encontrar, o que também pode ser de extremo interesse para os internos em formação ou colegas com uma área mais específica de interesse. É esta constituição do saber fazer nas várias áreas e no casamento de várias formas de estar e de agir que se espera beneficiar o doente.

SPH – Fala especificamente em que grupos?
JC – Grupos dedicados a várias patologias. Obviamente que estes grupos ainda estão em “vias de desenvolvimento”, nomeadamente o grupo das leucemias agudas e do glóbulo vermelho, mas temos já o grupo dos linfomas e dos mielomas para dar o exemplo e esperamos vir a ter muito mais.

SPH – Portanto esta reunião tem especial importância para os jovens internos?
LMS – Penso que sim. Na minha perspetiva é notório: os internos são responsáveis por uma grande parte dos trabalhos apresentados, quer em comunicação oral quer na forma de poster. Estes momentos são fundamentais na formação do jovem interno, para quem esta é, frequentemente, a primeira oportunidade de apresentar e discutir um trabalho perante uma comunidade de pares.

ML – Concordo que os internos têm tido um papel progressivamente mais interventivo na reunião, mas acho que seria uma inevitabilidade. Nunca a Hematologia teve tantos, é natural que o seu contributo seja cada vez maior.

JC – Aproveito esta deixa para falar de uma novidade na Reunião Anual, que é a existência de um autocarro gratuito que sai da cidade do Porto na quarta-feira, passa depois por Coimbra e Lisboa e segue até ao Algarve. Isto para que todos possam participar na totalidade da Reunião, desde o primeiro dia. E este dia, a “super quinta-feira”, é imperdível!
Temos três cursos em simultâneo durante a manhã que versam sobre alguns dos tópicos mais inovadores da Hematologia da atualidade:
Curso de mieloma múltiplo, que inclui um Workshop de diagnóstico e terapêutica em 2018, gestão de novos fármacos na prática clínica atual; um segundo curso sobre a biologia do cancro aplicado às novas terapêuticas dirigidas a alvos moleculares, nomeadamente na LMA e ainda um terceiro, sobre terapia celular e CAR T. Difícil vai ser escolher o tema! Segue-se uma tarde recheada de vários simpósios satélites.

SPH – Que principais exigências Vos foram colocadas para a organização desta Reunião?
LMS – Houve alguns dilemas que disseram respeito à estrutura do programa, mas julgamos ter encontrado as soluções adequadas. Escolher excelentes oradores para temas relevantes e inovadores foi a chave; se queremos ou não sessões simultâneas (que dividem a audiência e obrigam à escolha entre temas igualmente interessantes); a distribuição, com equilíbrio, das comunicações orais e dos posters.
Também sobre a duração do congresso, se deveríamos prolongar até sábado à tarde. Optámos por um modelo que nos pareceu equilibrado, por exemplo privilegiando uma saída mais cedo para que as pessoas possam chegar às suas casas ao final da tarde de sábado.

ML – Até porque me parece ter ocorrido uma aprendizagem de ano para ano, transversal às diferentes organizações, e isso culmina num amadurecimento do formato. A manutenção do interesse ao longo da reunião é sempre o maior desafio e isso só com bons oradores e temas importantes para a prática clínica. E, para cada tema, a escolha do speaker é fundamental.

Dr. Marcos Lemos

SPH – O orador é escolhido em função do tema ou o tema em função do orador?
JC – Funciona das duas formas. Há oradores que se impõem em determinados temas e vice-versa. O casamento, a hierarquização em termos de ordem do programa são muito importantes para continuar a apelar e a tocar os pontos de interesse dos Hematologistas- todos nós gostamos um bocadinho mais de uma área ou de outra. Por isso, a ordem e a organização do congresso têm-se aprimorado e garantimos que esta reunião em particular não vai defraudar em termos de novidade e qualidade.
Também a reunião de enfermagem em paralelo é muito importante para a troca de experiências dos enfermeiros bem como para a aprendizagem de uma série de particularidades inerentes à área hemato-oncológica.

ML – São escolhidos temas da actualidade, mas também são necessários temas “em contracorrente”, ou seja, temas que não estão “na moda”, mas que se mantém importantes no dia-a-dia clínico de todos nós.

JC – Revisitar temas faz todo o sentido, até para nos lembrarmos e nos atualizarmos. Aproveito para destacar no programa a atualização de alguns temas que vamos re-olhar, como é o caso novas orientações na prática transfusional ou outros, como a indicação da esplenectomia na PTI ou os síndromes mieloproliferativos crónicos (ex: trombocitemia essencial), à luz de alguns novos conceitos nomeadamente grupos de risco.

SPH – A Reunião é um espaço de formação?
JC – É da obrigação de todos nós atualizar-mo-nos individualmente em casa e no dia-a-dia, mas é efectivamente nos congressos e reuniões que o tempo é privilegiado para estudar e relembrar; é-nos oferecida, em pouco espaço de tempo, grande quantidade condensada de informação atualizada.
E sobretudo porque a maioria das vezes, nos congressos, ouvimos o” expert” de cada área, o que torna ainda mais emocionante a experiência de algumas reuniões.
Este programa espelha isso mesmo, vamos ter oportunidade de ouvir vários experts…

LMS – Todas as comunidades científicas com interesses comuns promovem reuniões em que se apresentam novos avanços de conhecimento, se partilham ideias, metodologias e práticas de trabalho. A Hematologia não é excepção! Ainda que o estudo faça parte do nosso dia-a-dia, o congresso é um momento único de aprendizagem e discussão.

SPH – Que temas destacam no programa deste ano?
LMS – O programa educacional de sexta-feira é especial, aborda como já dissemos, os múltiplos pequenos, na verdade, grandes desafios do nosso dia-a-dia como Hematologistas: como anticoagular? como tratar as intercorrências infecciosas? no doente hemato-oncológico?. O último tema é para nós o “gigante dentro da sala” – “Como resistir às enterobacteriaceas produtoras de carbapenemases?”
No Sábado, destacam-se duas oradoras nacionais de relevo nas respectivas áreas, a Dra. Graça Esteves vem falar nos da amiloidose AL e a Prof.ª Maria Gomes da Silva vem falar nos da abordagem terapêutica do linfoma do Manto.
Ainda neste dia, o Dr. Klaus Metzeler, um jovem médico e investigador irá falar de evolução clonal na leucémia mieloide aguda – o “Game of clones”. Trará à reunião o que de mais recente se sabe sobre a biologia celular e molecular da LMA, uma doença onde apesar dos avanços recentes, falta conhecimento que se traduza em terapêuticas mais eficazes e seguras.

Dra. Leonor Morais Sarmento

ML – Destacaria o Prof. Robert P. Gale com a sessão “Can we cure AML? How?” onde fará uma resenha das grandes controvérsias em torno do tratamento da leucemia mielóide aguda, perspectivando o futuro com os novos fármacos aprovados recentemente para esta indicação específica.

JC – Outros temas que estão na ordem do dia, obrigatórios nos dias de hoje e às vezes um pouco menosprezados por nós Hematologistas: “A infecção VHB e VHC: guia para o Hematologista”, apresentada pelo gastrenterologista Dr. Filipe Calinas, do Centro Hospitalar Lisboa Central. Será uma lição muito convidativa, nomeadamente na era da terapêutica imunossopressora, a gestão das infeções virais. Salientaria ainda, a contribuição da Prof.ª Catherine Cordonnier, que vai abordar a vacinação em doentes leucémicos e transplantados.

 

Aceite o convite da Comissão Organizadora….

Convite da Comissão Organizadora da Reunião Anual SPH 2018

A poucas semanas da Reunião Anual da SPH, aceite o convite da Comissão Organizadora…

Pubblicato da Sociedade Portuguesa de Hematologia su Lunedì 22 ottobre 2018