“Aquilo que tentamos trazer é a transversalidade”

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Desde há uns anos que a enfermagem ocupa um lugar de destaque na Reunião Anual da Sociedade Portuguesa de Hematologia. Também estes profissionais se reúnem com o intuito de actualizar conhecimento, mas também de partilhar experiências. Inovar, transversalidade e multiculturalidade, são palavras que, na opinião da Enfª Cândida Damião, da Comissão de Organização de Enfermagem, fazem parte deste programa.

Sociedade Portuguesa de Hematologia (SPH) – Desde 1999 que a SPH organiza periodicamente a sua Reunião. Do ponto de vista da enfermagem qual a importância destas reuniões?
Enfª Cândida Damião (CD) – Falar de doenças e doentes faz sentido não só entre a equipa médica, mas também importa envolver a restante equipa que colabora nos cuidados médicos, nomeadamente a enfermagem.

Enfª Cândida Damião
Enfª Cândida Damião

SPH – Considera que as reuniões anuais são o momento certo para actualizar os conhecimentos.
(CD) – Penso que não serve só para actualizar os conhecimentos, serve também para inovar. Temos que acompanhar a ciência e na área da enfermagem também é muito importante que acompanhemos esses conhecimentos, porque se queremos uma melhoria na qualidade, temos também que inovar. Por isso, eu digo na brincadeira que é um refresh de alguns conhecimentos, uma actualização de outros mas também o acrescentar de novos. Por isso, aproveitamos estes momentos de formação que nos junta, mas que também servem de partilha de experiências.

(SPH) – Falou em inovar. O que traz de novo este programa? Qual é a inovação?
(CD) – Tentamos trazer muitas coisas de novo, no sentido em que não sejam só temas dirigidos e focados nos doentes hematológicos, mas que haja também transversalidade. Ou seja, fala-se cada vez mais em literacia para a saúde, da segurança do doente, os cuidados seguros e o seu envolvimento não só do profissional de saúde, mas também do envolvimento do doente. Vamos igualmente trazer um pouco sobre a investigação – porque não há ciência sem investigação, não há cuidados sem investigação – sem esquecer os ensaios clínicos, que cada vez têm um papel mais importante ao nível dos serviços e onde o enfermeiros tem uma função predominante. Falamos também de nutrição, uma nutrição específica para o doente oncológico e inovamos ao trazer no final um showcooking. Há, por outro lado, temas muito pertinentes, como não consigo imaginar falar do doentes hematológico e não falar em controlo de infecção e projectos novos. Aqui é que está a inovação. Projectos novos que alguns serviços tenham desenvolvido ao longo deste último ano e que queiram apresentar.

(SPH) – Quais os critérios que usam para a escolha dos oradores e dos convidados?
(CD) – Tentamos convidar pessoas que consideramos peritas na área e que nos tragam os seus saberes. Se juntamente com isso nos trouxerem um pouco de cada centro é uma mais-valia. Tentamos que nos chegue a multiculturalidade de cada serviço, de norte a sul do país. Tentamos, não quer dizer que consigamos, mas fazemos a escolha dessa forma. Por outro lado, consoante o tema convidamos profissionais que não sejam apenas enfermeiros. Há também nutricionistas, médicos, investigadores…

Enfª Cândida Damião
Enfª Cândida Damião

(SPH) – O que espera encontrar de novo nesta reunião, que se distinga dos anos anteriores?
(CD) – Quando organizamos um evento desta natureza tentamos sempre fazer a diferença e acrescentar uma mais-valia. Neste caso falamos não só do doente hematológico, mas do doente hematológico transplantado. Aquilo que tentamos trazer é a transversalidade. Porque estas competências precisam de saberes e conhecimentos de outras áreas. Não podemos fugir da segurança, da investigação, dos ensaios clínicos…. Achámos que estas áreas podiam ser uma aposta forte nos cuidados destes doentes.

(SPH) – Que principais dificuldades encontraram ao preparar o programa?
(CD) – Não diria que encontrámos dificuldades, mas sim desafios. Porque pensar e desenhar o programa que queremos trazer para pessoas diferentes… é um enorme desafio. Todos queremos fazer o melhor e o grande desafio é encontrar temas que sejam pertinentes e que faça sentido na minha área de actuação mas também faça sentido aos olhos dos que vão participar.

(SPH) – Qual é o estado da enfermagem na área da hemato-oncologia?
(CD) – Não querendo ofender as outras áreas, mas um enfermeiro que trabalha com doentes oncológicos é um profissional de mão cheia. É um profissional que cumpre quase tudo o que foi aprendido na escola. Há desvios, mas são os normais. Temos as competências técnicas, do controlo de infecção, de toda a parte da segurança do doente, mas essencialmente, a competência humana, a relacional com o doente. Acho que é fundamental.

(SPH) – Não deixando de lado a actualidade… concorda com a falta de enfermeiros no SNS?
(CD) – Concordo. É uma realidade. E a falta de enfermeiros é transversal, seja os treinados para uma área específica como a oncologia, como noutras.