Dra. Aida B Sousa

“A Reunião vai ter Conferencistas de excelente qualidade”

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Aproxima-se a data mais aguardada pelos Hematologistas portugueses: a da Reunião Anual. Um espaço para a partilha de experiências, mas também de aprendizagem. A Dra. Aida Botelho de Sousa, presidente da Comissão Científica, destaca algumas novidades organizativas, mas admite que a Reunião tem já um estatuto consolidado na Hematologia. Levantamos o véu a algumas das inovações deste ano.

 

Sociedade Portuguesa de Hematologia (SPH) – Que principais novidades vão ser discutidas nesta reunião anual que se mantém desde 1999?
Dra. Aida Botelho de Sousa (ABS) – Nestes 20 anos a Reunião foi melhorando progressivamente, e na última década tem tido, com inevitáveis variações,  uma excelente qualidade. É o ponto maior de encontro de todos os que se interessam pela Hematologia em Portugal, com um estatuto consolidado: todos temos marcado no calendário um encontro para meados de Novembro, que sabemos ir ser de partilha de experiências e actualização. É bom este hábito de nos prepararmos todos os anos para conversar, aprender, tentar criar pontes de colaboração entre os serviços. Igualmente importante nesta reunião é a participação, cada vez mais visível, de profissionais de áreas cujo apoio nos é imprescindível: enfermeiros, biólogos, geneticistas e outros técnicos que trabalham em estreita colaboração com a Hematologia. Estamos convencidos de que também este ano a reunião será um sucesso. É condição desse sucesso a participação de todos, inscrevendo-se e participando activamente, quer submetendo trabalhos para comunicação na reunião, quer tomando parte activa nas discussões dessas comunicações ou das palestras a que venham a assistir.

SPH – Voltando às novidades deste ano…
ABS – Este ano a Comissão Científica entendeu escolher temas menos focados nos últimos dois anos, e tentou não sobrepor os temas do programa científico e os que vão ser focadas na quinta-feira, nos Cursos e nos Simpósios Satélite. Julgamos ter encontrado um equilíbrio razoável entre assuntos de hematologia benigna e maligna, de modo a que cada um se reveja, qualquer que seja a sua área de interesse particular, nalguma parte do programa. Alguns temas são no entanto incontornáveis, mesmo quando recentemente focados, dados a novidade de certas abordagens diagnósticas ou o entusiasmo gerado por novas estratégias terapêuticas. Porque optámos por continuar um calendário que provou bem em 2017, reduzindo a um dia e meio o programa científico (e concluindo a reunião ao almoço de sábado) não couberam, com grande pena minha, questões tão apaixonantes como a edição de genes ou debates tão importantes para a organização dos serviços como o acesso às novas drogas ou o uso racional dos meios complementares. Ficarão para próximas ocasiões…

Foi dado enorme relevo às contribuições originais dos serviços, sendo 1/3 do tempo total do programa científico preenchido com as comunicações livres (posters e comunicações orais): a 1ª hora de sexta feira e toda a tarde desse dia são-lhes dedicadas, sempre em 2 sessões paralelas, dando espaço a 40 comunicações orais, e sendo uma hora e meia dedicada à discussão dos posters, com presença obrigatória dos autores, como é aliás habitual.

SPH – E a escolha dos temas recaiu sobre quais inovações?
ABS –Em relação aos temas da hematologia benigna vamos ouvir falar de anticoagulação no doente hemo-oncológico. É uma área controversa que merece ser revista, até por ensaios recentes terem posto em causa alguns dogmas neste campo. Outro assunto nunca falado mas fundamental para a boa prática médica, é o da estratégia transfusional: a noção teórica da inutilidade e do risco do excesso de transfusão é conhecida dos hematologistas (e dos hemoterapêutas) mas falta incorporá-la solidamente na prática diária. Também é útil revisitar a estratégia de tratamento na Púrpura Trombocitopénica Imune quando falha a corticoterapia, pois tem vindo a crescer a discrepância entre a recomendação internacional de esplenectomia e as decisões de vida real desde o advento de novas opções medicamentosas.

Não podiam faltar neste programa sessões educacionais focadas na infecciologia do imunodeprimido: gestão da infecção pelos vírus da hepatite B e C nos doentes submetidos a imunoquimioterapia; infecções a bactérias multiresistentes,  indubitavelmente o problema principal actual da hematologia intensiva, que ameaça deteriorar os resultados do tratamento de doentes com leucemia aguda ou transplantados. Também neste campo, serão apresentadas as recomendações da última ECIL sobre a vacinação destes 2 grupos de doentes, os mais profundamente imunosuprimidos de todos os imunosuprimidos.

No que se refere à Hematologia Oncológica, teremos na sexta feira uma sessão educacional sobre novos conceitos na trombocitemia essencial e policitemia vera, traduzidos em mudanças na prática clínica; na sexta feira, será focada a Amiloidose Primária, mal conhecida, de diagnóstico difícil, não raramente tardio demais para o transplante autólogo indicado. Serão discutidas novas opções terapêuticas em linfomas – de Células do Manto, Difuso de Células Grandes e de Hodgkin – que derivam do melhor conhecimento biológico da doença, da estratificação dos doentes em subgrupos de risco diverso, ou do aparecimento de novos fármacos. Como noutras áreas, caminhamos para decisões cada vez mais individualizadas. O mesmo aliás se aplica às conferências finais sobre Leucemias Agudas Linfoblástica e Mieloblástica, onde os avanços no conhecimento das alterações moleculares, a disseminação das tecnologias para as detectar com rapidez e precisão, e o surgimento de drogas dirigidas a essas alterações ou de anticorpos bi-específicos e de células CAR-T começam a mudar o prognóstico até agora relativamente sombrio nos adultos.

Dra. Aida Botelho de Sousa

SPH – E por falar em Conferencistas: são escolhidos em função do tema ou vice-versa?
ABS – Os conferencistas, quer nacionais quer internacionais, foram escolhidos por serem excelentes comunicadores, pela capacidade de interessar a assistência, de trazer novos ângulos de visão ao seu tema, e de gerar debate vivo.

SPH – Em termos organizativos o que destaca neste ano?
ABS – Além da valorização máxima das comunicações livres de que falámos já, destacarei 2 ou 3 pontos: a fixação de tempos reservados à discussão em todas as palestras e comunicações (algo que nos  costuma faltar, dada a nossa dificuldade latina de cumprir horários) cujo sucesso dependerá da firmeza dos moderadores; a separação total do programa científico e dos simpósios satélite, regra que aplicámos na nossa anterior organização em 2011 e que foi retomada em 2017, decisão que não menoriza os simpósios, muito pelo contrário. A colaboração da indústria é aliás instrumental para a concretização destas reuniões; os 9 simpósios patrocinados previstos para a tarde do 1º dia são promissores, dado o momento dourado que a Hematologia vive em termos de novos medicamentos. Antes destes simpósios, na manhã dessa super-quinta feira haverá 3 cursos em paralelo: recomendações de tratamento do mieloma (workshop do Grupo Português de Mieloma Múltiplo); terapia celular; e terapêutica personalizada na leucemia aguda. Razões de sobra para todos chegarem na véspera à noite – aqui apelo já aos os directores de serviço para permitirem a vinda atempada das suas equipas – aproveitando o autocarro que será disponibilizado, e que sai na quarta ao fim da tarde do Porto e regressa sábado à hora de almoço, com paragem em Coimbra e Lisboa.

É de esperar, dada a actual ausência de estações do ano, um tempo primaveril em Novembro que permitirá nos intervalos uma corrida na praia ou um gelado na Marina, idealmente na companhia de gente dos outros serviços…

A Reunião Anual SPH 2018 voltará a ser acreditada como acção de formação médica continuada (CME) pela EHA (European Hematology Association). Os participantes deverão cobrar os seus créditos e preencher os inquéritos de satisfação à saída das sessões. Os palestrantes e moderadores deverão actualizar no site EHA a sua declaração de conflitos.

SPH – Há, no entanto, uma tradição que se mantém: os Prémios…
ABS – É uma forma de distinguir algumas das melhores comunicações, e um estímulo saudável à apresentação de trabalhos. A Comissão Científica é integralmente responsável pela elaboração das regras e da grelha de classificação dos resumos submetidos – avaliados num formato totalmente anonimizado – assim como pela sua aceitação (ou recusa) para comunicação oral, poster, ou somente publicação no livro de resumos. Encarregar-se-á também da moderação das 4 sessões de comunicações orais e do poster walk de discussão com os autores, e finalmente terá como função atribuir os prémios. Devo salientar que a Comissão Científica 2018 tem estado muito activa e tem feito um excelente trabalho, do qual dependem a qualidade e o bom andamento da Reunião.

SPH – Falou num momento dourado da Hematologia no que toca a novas terapêuticas…Há também um rejuvenescimento nos recursos humanos?!
ABS – A Hematologia portuguesa é cronicamente deficitária em recursos humanos, e há alguns anos a situação agravou-se em vários centros, particularmente no sul, pois coincidiu a reforma de múltiplos seniores com o abandono do SNS por especialistas mais jovens. Na verdade esta especialidade é tão apaixonante quanto trabalhosa e  stressante… Actualmente parece poder estar a inverter-se aquela tendência: a maioria dos serviços têm internos sabedores e interessados, e é essencial que os hospitais criem as condições para o reforço e a renovação das equipas hematológicas.